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"na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim e não dizemos nada. na segunda noite, já não se escondem pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada. até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo arranca-nos a voz da garganta e já não podemos dizer nada."

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Itapeva, 29 de setembro de 2005
O primeiro sábado

Divina come lentamente sua folha de alface de almoço. Espaço limpo, arrumado. Cheiro de incenso pelo ar. Rua Peixoto Gomide, 431/103. Cerqueira Cézar - São Paulo - Capital - 01409. FM Manchete, cigarro west. Unibanco. Leni, Maurício. Só. Telefone mudo. Toca! Fale comigo! Me telefona, Lobão! Pai. Mãe. Saudade. Silêncio. Sono. Encho o pulmão e esvazio o coração. Pode entrar que a casa é sua. Começo. Será que vai dar? Será que será? Dezembro/84. Natal. Papai Noel, quero um amigo de presente. Vizinhos. Gente. Deus. Meu Jesus lindo! Quero ir rezar pra você nascer na cabeça da gente. Vem com tudo. Obrigada. Ajuda no próximo degrau. Empurra! Basta isso. E um sorriso seu por dia. Vale né? Pode né? Mas não vale fazer figa. "Orai e vigiai". Já não tão sozinha. Deus comigo. Aqui. Obrigada mais uma vez. Bate coração. Pulsa! Vê se não se entrega, não se acomoda. Pula de lá pra cá no espaço dessas distâncias, sem medo. Chega de dúvidas. Sem ânsia. Estou aqui! Sem dúvida que estou! Super sol. Verão começando oficialmente em plena chuva de papel picado com gosto na Avenida Paulista. Desejos de felicidades. Pontas de amizade brotando entre as explicações sobre os códigos. Computador, dígito, dados. Siga. Pare. Continue. Posso perguntar uma coisa? Saída para o almoço. Corre que não vai dar tempo. Anda! Vem! Sábado. Enorme. Só o primeiro.

22.12.84

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=============================

Minha transferência pro Unibanco da Avenida Paulista saiu em dezembro de 1984. Foi tudo tão de repente que tive de assumir minha vaga ainda sem ter onde morar. Dei sorte e fui dividir uma quitinete com uma amiga daqui que já morava lá.

A primeira semana de trabalho na agência do Conjunto Nacional foi uma loucura total. Meu sonho de morar na cidade grande começava a tomar forma, sob forte influência do espírito natalino.

Meu primeiro sábado na capital passei só. Eu e Divina, tartaruga da minha amiga, que vivia numa bacia d'água, no meio da sala. Sala que também era quarto e que tinha, além de uma prancheta imensa (minha amiga é arquiteta até hoje!!!), uma rede com vista para a vidraça que tomava conta de uma das paredes.

O espaço era mínimo, mas, qual o problema? Nenhum. Eu chorava e ria. De saudade, de feliz. Eu finalmente fazia parte daquela engrenagem maluca e cantava alto pela rua.

O natal daquele ano caiu na terça-feira e eu não pude vir pra casa. Tive de trabalhar. Mas no ano novo eu vim. E trouxe Divina comigo. Não poderia deixar a bichinha sozinha por tanto tempo... Mas essa já é outra história...



Itapeva, 27 de setembro de 2005
Mãe

O duro é que ela é mãe
E mãe cultiva pra sempre
A dor do parto
Uma despedida constante

O duro é que ela tem esperança
Igualzinha aquela de 21 anos atrás
Quando tricotava
E imaginava aquilo cheio de vida

O duro não é ser mãe ou ter esperança
Mas sim carregar em si
Traços pessoais escondidos
É ter que ser mãe e ter que ter esperança

O duro não é desejar a volta
Mas sangrar na ida
É ter a sensação de perda
Pra sempre, pro fim

É escutar a voz pelo fone
Imaginando cada movimento do outro lado
E dizer "Deus te abençôe, filha; fica com Deus..."

Sim, fica sempre com Deus
Porque a vida é de uma dureza
Que se não houver esperança
Não há mãe que resista

A sorte foi que a minha resistiu
Tá aí, forte, segurando todas
Sabendo de tudo
Esperando, esperando, sempre esperando
Sempre...

15/11/84

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Itapeva, 23 de setembro de 2005
Loucos e bêbados

Raras foram as vezes que escrevi ao meu pai. Desde que deixei de morar com ele, somente três ou quatro cartas, talvez nem isso. Eu e meu pai somos muito parecidos, muito mesmo, e esta coincidência de ser atrapalhou o nosso relacionamento. Poucas vezes, poucas palavras, tudo entre nós sempre foi “pouco”. É doído no peito e só. Dói e só! Por incrível que pareça até hoje temos pouco a nos falar. Mas, ao mesmo tempo, sinto um grande amor entre nós. Seria bom que eu pudesse abraçá-lo agora, e dizer que pretendo escrever sobre ele, contar nossas coisas para o mundo.

Bom pai, já estou envolvida pela idéia, tanto que (preocupada aqui em começar com o pronome na primeira pessoa do singular, posso me complicar!) voltei no tempo, para nossa casa na rua Olívia Marques, 702, aí em Itapeva. Aquela na qual meu quarto tinha duas janelas. Eu gostava tanto daquelas janelas. Uma delas me dava uma foto da torre da catedral e na outra tinha um morro, um horizonte recortado e lindas luas cheias. Tem uma história de uma madrugada de sábado que foi ótima e até escrevi isso em nossa homenagem:

Ele louco
Ela bêbada
Ambos loucos e bêbados
Guardados em sua intimidade
Morrendo de vontade
De contar as próprias viagens
Eles são iguais
Ao chegarem juntos
E cada um procurar seu canto
Pra pensar calados

E por serem assim
Tão iguais
Não se cruzam
Temendo a conseqüência
Temendo um olhar profundo
Um beijo bem dado
Um abraço acarinhado
Um conforto mútuo

Ela louca
Ele bêbado
Ambos bêbados e loucos
Destinados a seguir
Sempre paralelos
Pra nunca se cruzar
Pra não ter com quem contar
Nem pra quem
Quando na verdade
Precisam e têm

E dois minutos depois das duas horas
Ouve-se um sono bêbado
Enquanto ao lado
A poesia se faz
Quente e forte
Faz-se somente
Loucamente.

15/10/83

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===============

Eu já morava em São Paulo quando rabisquei isso. Ali por 1985, acho. Foi só quando a distância se concretizou entre nós é que pude perceber o quanto tinha a falar com meu pai. E foi também por causa dessa distância que passamos a nos respeitar e nos amar mais.

Certamente o fato de eu ter meu emprego, meu canto, de pagar meu aluguel e minha faculdade, mudou muito a maneira dele me encarar.

- Virei gente grande, pai!

Viramos amigos!



Itapeva, 22 de setembro de 2005
Chuvas

chuva8.jpg

Lá pelos anos da minha infância lembro-me de uma vez em que tomei uma enorme chuva. Sai da escola e fui direto pro barzinho onde a gente se entupia de doce antes do almoço. Na saída, com a barriga cheia, caiu uma puta chuva de pedra. Eu chorava pelo meio da rua de dor e de medo, pois sabia o tamanho da bronca que levaria em casa.

Na torrefação Carneiro fui acolhida e pude ficar um pouco perto daquele calorzinho que vinha do forno. A chuva parou e consegui chegar até em casa ainda tremendo. Não sei se apanhei, não lembro, acho que o susto com os trovões e o medo das pedras me deixaram apavorada demais. Sei que chorei muito...

Hoje minha infância está longe e as chuvas não me dão mais medo. Hoje chove e eu acho bonito. Apenas a vontade de chorar é que não passa. Tem tempo que não choro, que não transmito meus verdadeiros sentimentos. Engulo sapos e eles ficam coachando na minha cabeça, inquietantes, insistentes. Minha infância levou meus sonhos para o passado junto com as lembranças e não deixou nenhuma luz, não deixou esperanças...

Certo, tenho 20 anos e a vida toda pela frente, mas por que a gente sempre tem que esperar pelos anos para ver se os sonhos voltam e se realizam? Por que a gente tem que viver em banho-maria, sempre na temperatura certa? Por que calar se minha vontade é botar a boca no mundo? Porque rir se quero fazer um beiço deste tamanho e mandar todo mundo pra pqp???

Tenho testado meus impulsos, melhor, tenho segurado minha cabeça demais pra ver se satisfaço alguns que me pedem isso. Até quando vou aguentar essa barra? Mesmo o céu fica inquieto em dias de chuva, soltando raios e barulhos, desafiando a coragem da terra que permanece abaixo dele. Cansei de ser terra e pisada, vou voar, vou ventar e trovejar. Chega de calmaria, isso era no tempo da minha infância. Cresci e agora esse é meu preço.

17.10.83



Itapeva, 21 de setembro de 2005
Sonho

21 de setembro de 1983

Linda data!
Dia de virar mais uma página
De esquecer o passado
De sorrir pra vida
Vida! Que bom voltar a viver!
Podem ir, eu fico
Fico pra enfrentar a torrente
Quero ficar pra ver
Tenho bons amigos
Que comemoram comigo essa bela data
Alguns se irritam comigo
Me engolem, me aceitam
Disfarçam e acham lindo também
Ignoro!
Começo hoje
Mais uma vez
Mais um degrau
Digníssimos itapevenses
Acostumem-se
Vim pra ficar
Até quando?
Até...
Até uma outra linda data...

costas.jpg

=====================

Assim que coloquei os pés no Unibanco, meu primeiro emprego "de verdade", percebi que era essa minha chance de sair daqui. De cara me informei quanto tempo de casa eu precisava para pedir transferência. Um ano. Um ano? Passa rápido.

Durante esse tempo, enquanto construía meu sonho, vesti a fantasia de bancária, aprendi a fazer cálculos, dei dinheiro a mais de troco. Quase morri de chorar. Os colegas (todos!) fizeram uma vaquinha pra me ajudar a pagar. Participei das olimpíadas bancárias, fui a monte de festas, conheci cidades que jamais imaginei conhecer. E quando me dei conta... estava na hora de partir. Até festa de despedida eu ganhei. Acho que eles estavam mais felizes que eu... rs...

E foi assim que cheguei na cidade grande...



Itapeva, 18 de setembro de 2005
Calmaria

Não! Essa calmaria não me pega mais! Sei dos tombos antes mesmo deles chegarem. Sento-me e espero. Crio assim maior segurança, maior desconforto, menores cicatrizes. Luto para conseguir tal estado de graça, e quando me vêm, fujo, sumo, nunca assumo.

Nunca fui feliz facilmente, porque agora teria de ser? Me assusta, me descontrola tal sensação.

Sorte que já sou mais forte. Hoje já sou muito mais forte. Amanhã, com certeza, refletirei como tenho sido fraca. Amanhã. Hoje é paz e inércia. É ser alguma coisa que se sonha, mas ainda não é.

Não corro mais atrás das coisas. Elas me procuram, desdenhosas. Devolvo o desdém com a mesma vontade de comprar.

Sou até capaz de rir de mim quando, na verdade, rio dos outros. Gosto de pensar que ainda vou gostar de mim! Sim! Gostarei. Melhor, amarei minha pessoa, quando chegar a hora.

Hoje não. Hoje ainda é paz. Inquietante. Hoje ainda dá tempo de pensar que tudo vai dar certo, embora não haja nenhuma seta indicando ---> "por ali".

25/08/83

mergulho.jpg



Itapeva, 17 de setembro de 2005
Perspectivas

À medida que o tempo passa, passo pela cidade mais tranquila. Minha casa já é minha casa. Sou dona de algo. Tenho pensado muito no que sou e no que gostaria de ser e acabo sendo outra muito diferente. Fico na espera dos bons momentos mesmo sabendo que eles irão demorar-se ainda. Fico em Itapeva até liberarem meu passaporte. Pra uma longa viagem, muito longa. Vivo o momento presente com toda intensidade que me é possível. Sou uma peça rara deslocada de seu quebra-cabeça. E isto é apenas o começo, só o começo!

Lana - 09/08/83
Terça - frio
inverno/83

Minhas perspectivas para o verão aumentam a cada raio mais forte de sol. E lá vou eu sonhar com mais um bom tempo, com a ajuda de um sorvete, um chopp e um bronzeado jacarandá... Viva o sol!!!

motoca.jpg


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É engraçado como tão pouca coisa mudou. Esse deve ter sido o inverno mais triste da minha vida. Tinha acabado de me formar. Não tinha emprego. Não cabia mais na circunscrição do município. Tinha que sair daqui. Mas ainda havia uma etapa a cumprir. Que, no final das contas, também foi um tempo bom. E só agora, 20 e tantos anos depois é que vejo isso.



Itapeva, 16 de setembro de 2005
Recomeço

lua.jpg

É sob a luz da lua cheia que reinauguro esse espaço. Luiza desistiu do Anormal. Resolvi insistir nele. Ainda não sei muito bem como vou preenchê-lo. Tem tanta coisa que gostaria de escrever, de deixar registrado. Tem tanta coisa que já escrevi e que poderia, talvez, caber aqui. A única certeza que tenho é que não posso desperdiçar esse banner, esse azul, esse sopro.

Que sou anormal, não tenho nenhuma dúvida. E é esse meu lado que quero explorar. Essa minha teimosia em nadar contra a maré. Essa minha rebeldia em desafiar o convencional. Se for fazer uma retrospectiva de vida, posso dizer que andei muitos e muitos quilômetros na contra-mão. Isso foi muito doloroso às vezes. Mas também me fez viver experiências inesquecíveis. Me fez aprender na porrada.

Sem saber muito bem que fim vai ter isso, me lanço.
É mais uma aventura.
Por aqui, por favor...

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entro em minha mente
e como um doido
quebro todas as boas reminiscências

então fico na dimensão material
vivenciando as coisas rudes
que me aconteceram

e estas não me canso de exaltar
em todos os altares
do dia após o dia.

03/07/1988