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"na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim e não dizemos nada. na segunda noite, já não se escondem pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada. até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo arranca-nos a voz da garganta e já não podemos dizer nada."

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Itapeva, 17 de janeiro de 2006
Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

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Esse poema de José Régio chegou aos meus ouvidos quando morei em Sorocaba, em 1980, na primeira aula de Física do cursinho. Esse foi o jeito do professor Tarso fazer sua apresentação à turma. Eu que nunca gostei da matéria, fiquei apaixonada. Pelo professor também, claro, assim como todas as meninas do terceirão do Objetivo.

Essa parte em negrito eu soube de cor por muito tempo. O Cântico funcionava como um hino pra mim. Um grito de rebeldia. Outro dia me deparei com ele no blog da e não deu outra: sai andando e falando a poesia como se nunca tivesse deixado de fazer isso.

NÃO, NÃO VOU POR AI...
SÓ VOU POR ONDE ME LEVAM MEUS PRÓPRIOS PASSOS!!!!

tá?



Itapeva, 08 de janeiro de 2006
Janeiro

Ainda em ritmo
Desgovernado
De todos os janeiros da vida
Posso afirmar minha paz
Dúvidas sim, montes
Mas certeza porém
E consciência do degrau
Da progressão

Pareço estar melhor comigo
Menos ingrata
Me dou mais um voto de confiança
- Vai, arregaça as mangas
E busca pelos sonhos
Mergulha neles inevitavelmente
Pois quando acabarem
Saberá que foi só um sonho.

28/01/86