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"na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim e não dizemos nada. na segunda noite, já não se escondem pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada. até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo arranca-nos a voz da garganta e já não podemos dizer nada."

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Itapeva, 25 de março de 2006
março

mais um março
de novo mulher
de cara, de fala
cabelos
olhos e coração

março
marciano
coisas de madrugada
de lua
de dizer oi
por entre prédios
e gentes e carros

a mulher está na lua
na rua
está aí
sempre
sorrindo um oi

o fato de insitir
ou existir
não interfere
nem acelera
sente só que há
hesita mas quer
por necessidade
opção
ou por coisas sem solução

realmente é bom respirar
saber nesse instante
a grandeza disso tudo
por mais longe que seja
seja perto
porque é

março/1985



Itapeva, 18 de março de 2006
sábado ensolarado

Fui à piscina hoje. Clube de Campo. Seis meses já se passaram e nada de lançarem o veredicto final. Tenho minha vida presa nas mãos de outros. Dependo, embora isto não influencie meu pensamento e minha ação. Não sinto nada. Indistintamente tudo me parece especial.

De certa forma descuido das minhas mais loucas vontades, deixo que elas aconteçam por si. Estou alheia, consciente de que estou, mas fazer mais o quê se tenho que me sentar para esperar os frutos e as flores?

Fico observando lunaticamente. Desconfio do futuro que fatalmente passará por mim sem tomar cuidado algum.

Ainda disponho de tempo... Acho que sim.

Vou dormir. Mil galos cantam na madrugada linda de pedra chata. Somos índios verdes nas raízes.

05/11/1983



Itapeva, 12 de março de 2006
Medo

Medo do gerente
Quá-quá-quá!
Medo do medo
Como se, de repente
O locutor da Eldorado
Atravessasse a música
E gritasse:
"Pára, pára!!!
Jogaram um bomba
Atômica, sei lá
No prédio em frente ao posto de gasolina
Ali na Frei Caneca..."
É o meu, e agora?
Pulo do 2º andar?
Desço a escada correndo?
Deixo tudo?
Não...
O quadro da Elis
As plantas, a Bíblia
O rádio, a maconha
Os livros...
Preciso decidir
Parar e pensar não dá
E como não sentir
A morte espreitando?
Numa sensação de estrangulamento interior
Rodando, virando, para si
Para dentro
Até atingir a velocidade do tempo
E mergulhar na suave maciez
Do medo
Do medo de morrer!

19/02/1986

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