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"na primeira noite
eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim
e não dizemos nada.
na segunda noite,
já não se escondem
pisam as flores,
matam nosso cão
e não dizemos nada.
até que um dia
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa
rouba-nos a luz
e, conhecendo nosso medo
arranca-nos a voz da garganta
e já não podemos dizer nada."
.::Sempre::.
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.::Passei::.
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Itapeva, 25 de junho de 2006
Salve-nos, Rainha...
Hoje Lu passa o dia fora, em um retiro espiritual. Lá foi ela de mala e cuia, bíblia, terço, lanche e medo de não saber dizer as orações que não decorou. Agora de manhã veio me perguntar como era mesmo a Salve, Rainha, porque chegava no meio e embatucava com aquelas palavras complicadas. Fui rezando com ela e... lembrando!!! Salve Rainha, ó clemente, Rogai por nós Santa mãe de Deus. Lá foi ela e eu fico aqui pedindo à Nossa Senhora que nos ilumine, que a gente se entenda. Por que, tá difícil. Tá bastante difícil.
E o que mais me dói e machuca é essa frieza entre a gente que não sei dizer de onde começou, que vem das raízes e seca qualquer iniciativa minha de calor e afeto. Salve-nos, Rainha, desse frio...
Itapeva, 11 de junho de 2006
momento de luz
Ontem foi a missa do padrinho de fé da Lu. Assim: elas escolhem alguém pra confirmar com elas o batismo e isso é sacramentado durante uma missa. Lu escolheu a Ritoca pra madrinha de fé e lá fomos nós rezar pra que o Espírito Santo ilumine essa caminhada. Num determinado momento da celebração, as meninas vieram até os pais e os padrinhos, no caso eu e Ritoca, com a vela do batismo acesa pra fazermos uma prece juntas. Nossa, coisa linda viu? Olha só esse trechinho da oração que fizemos juntas: Senhor... Acompanha-nos com tua sabedoria. Fica junto de nós nos dias indecisos de sua pré-adolescência, nos dias difíceis de sua juventude. Ensina-nos a abrir seus olhos para tudo o que é belo, a abrir seu espírito para tudo o que é verdadeiro e santo, e o seu coração para tudo o que deve ser amado. Ensina-nos a escutá-los, a ajudá-los a assumir, pouco a pouco, sua responsabilidade, segunda sua vocação e não segundo nossos desejos. Dá-nos saber desaparecer, discretamente, quando para eles chegar a hora de tomar a própria vida nas mãos. E quando não estivermos mais para cercá-los com nosso afeto, permanece junto deles até o dia em que nos reencontraremos todos unidos na casa do Pai.
Itapeva, 05 de junho de 2006
Amigas
Na sexta à tarde, Lu me ligou no trabalho perguntando se suas amigas poderiam ir em casa no sábado, para também ajudar nas tarefas atrasadas da apostíla. Eu disse que sim, desde que ela se lembrasse que ainda estava se recuperando e, portanto, não poderia ficar de fuzarca. (Putz, fuzarca é antigo, né?) O bom comportamento durou pouco mais de uma hora. Enquanto fui tomar banho, elas foram para o quintal jogar bola, andar de skate, de patins, enfim, brincar. Até dei umas broncas, mas depois entreguei na mão de Deus, dos anjos e astronautas e pedi que eles não deixassem ela ter uma recaída. Enquanto eu fazia uma faxina em mim (unhas, sobrancelhas etecetera e tal), ouvia as gargalhadas delas e pensava no quanto é boa essa idade de identificações e confidências, de certeza de que nada é melhor ou mais importante do que estar entre amigos. No domingo mais uma amiga ligou pra saber se ela estava bem e deu uma passadinha pra deixar uns cd's da sua banda favorita. - Tenho que ir pra escola amanhã, Mã? , me perguntou ajeitando a franja, tentando esconder as perebas que ainda resistem por lá. - Deixa pra terça, tá? - Brigada... boa noite, mã... - Durma com Deus, filha...
Itapeva, 02 de junho de 2006
Ela cantou!
Esta semana criamos um novo ritual: banho na Lu na hora do almoço. Nos primeiros dias foi difícil, porque ela mal parava em pé de febre e dor. Ficávamos a maior parte do tempo em silêncio e eu procurava ser rápida para que ela pudesse voltar logo pra cama. Ontem, quando começamos o banho, tive uma surpresa. Ela estava cantando. Cantando!!!! Meu Deus, que saudade de ouvi-la cantar! Sinal de vida! De alegria! De que nada é definitivo. Principalmente os males. Depois fiquei pensando nos dedos de Deus, mexendo nas peças de um enorme tabuleiro, fazendo com que nos aproximemos mais uns dos outros. Às vezes, pela dor.
Itapeva, 01 de junho de 2006
Diário da sua 1ª Comunhão
A partir de hoje, esse espaço ficará reservado para um diário de contagem regressiva da 1ª Comunhão da Luiza. Essa idéia me ocorreu agora de manhã e gostei dela. Falta exatamente um mês e é aqui que vou registrar tudo. Luiza tem vários questionamentos a respeito da religião católica. Acha algumas coisas absurdas como, por exemplo, a igreja condenar e proibir o uso de camisinha e de pílula anticoncepcional. Tenho que concordar com ela. Põe absurdo nisso. O que tenho procurado fazê-la entender é que, independente de religião, o importante é reservar um pedaço do nosso tempo, do nosso coração, da nossa mente e das nossas atitudes para Deus. Fé é ingrediente para a vida. Para toda a vida. Essa semana Lu pegou catapora. Das brabas. Até a água do chuveiro doía na pele inteirinha piriricada. Ela chora de dor, de desespero, de desânimo, de febre. Eu choro de dó, porque não tem pior coisa do que ver uma filha com dor. Banho de permanganato, talco mentolado e carinho de mãe em excesso tem dado ótimos resultados. Nessas horas entendo perfeitamente o que Deus quer comigo, como mãe. |
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